Ética da informação e soberania digital

  • Autor
  • Arthur Coelho Bezerra
  • Resumo
  •  

    Os conflitos sociais que atravessam o século XXI possuem contornos históricos e estruturais de raça, gênero e classe que ganham escala no ecossistema digital, afetando indivíduos, grupos em situação de vulnerabilidade e até mesmo a soberania de nações. Esse ecossistema digital é dominado por um pequeno grupo de corporações, em sua maioria norte-americanas, que não tem demonstrado pudor em explicitar seus interesses na influência política de seu país e, por extensão, nas formas mundiais de governança, na expansão de áreas de influência, nas formas de consumo energético e assim por diante.

    A posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2025, representou um marco histórico não apenas por conta do retorno de um personagem central nas aspirações de ruptura democrática, mas também por simbolizar a consolidação de uma forma escancarada de simbiose entre o Estado e o capital corporativo tecnológico. Pela primeira vez, os principais arquitetos do espaço público digital — Jeff Bezos da Amazon, Tim Cook da Apple, Sundar Pichai do Google, Satya Nadella da Microsoft, Mark Zuckerberg da Meta e Elon Musk da X Corp e SpaceX — compareceram coletivamente à cerimônia, transcendendo o papel de meros convidados para assumirem a posição de patrocinadores e provedores de infraestrutura crítica.

    O manancial de dados digitais que as gigantes da tecnologia têm coletado e armazenado nas últimas duas décadas, e que hoje é essencial para as promessas grandiloquentes da inteligência artificial, tem permitido uma concentração de poder inédita, com implicações na cultura, na segurança, na saúde coletiva, em economias e democracias ao redor do mundo. Esse controle de dados está atrelado a um componente ideológico que se vale de uma gramática repleta de predicados leves e inteligentes, como os aparelhos “smart” ou a chamada “nuvem” que armazena dados de pessoas, empresas e governos. Além de estimular a crença e a confiança na falsa neutralidade de algoritmos e da inteligência artificial, a ideologia das chamadas big techs mascara um modelo de negócios social e ambientalmente insustentável, baseado no consumo excessivo de água e energia, na mineração de terras raras por mão de obra precarizada, na exploração laboral e sexual de corpos e mentes (inclusive os de crianças) e na circulação de desinformação e discursos de ódio que alimentam o racismo, a homofobia, a xenofobia e a misoginia.

    O objetivo deste trabalho é argumentar que a abundância de questões e conflitos de ordem moral relacionados ao ambiente digital revela a necessidade da produção de diagnósticos críticos que, não se limitando ao caráter instrumental das tecnologias e suas inovadoras potencialidades, deem conta da complexidade dos dilemas éticos que vêm emergindo nas redes digitais nos últimos anos. Iremos defender que a melhor forma de realizar tal expediente é sob os auspícios da ética da informação, estudada no campo da Ciência da Informação em diálogo com outras áreas das Ciências Humanas, Sociais e Biológicas.

     

  • Palavras-chave
  • Ética da informação; soberania digital; ciência da informação; big techs
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 7 - Estudos Críticos em Ciência da Informação
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